O que falta é o toque. É o que é visível, palpável, palatável. Falta o som das risadas. O balançar das cortinas no sábado de manhã, procurando o que fazer para aproveitar melhor o fim de semana.
Falta o beijo de todo dia antes de sair pro trabalho, mesmo quando a gente brigava e você ficava sem falar comigo. Falta o eu te amo no fim de toda e qualquer ligação que fazíamos uma pra outra. Sem aqueles eu te amos, nenhuma existência fazia sentido.
Talvez agora não faça mesmo.
Falta o silêncio cúmplice das tardes de domingo, enquanto você me ajudava a programar a próxima semana.
Falta o seu tempero na comida, o gosto daquilo que só você sabia fazer. O feijão com louro e linguiça, o peixe à brasileira com azeite de dendê e leite de coco, a língua com milho verde e nunca ervilha, o bacalhau cheio de azeitona que eu sabia que você fazia pra me irritar, só podia.
Faltam as suas broncas, suas exigências, sua preocupação com a minha aparência e sua certeza de que eu conseguiria tudo que eu quisesse e que tudo ficaria bem.
Falta, acima de tudo, o amor palpável, aquele que extrapola o sentimento e se traduz em atitudes positivas e diretas.
Ainda não adianta pensar que você olha por mim de onde está (e eu sei que sim). Tudo o que sinto é a falta exatamente de te sentir fisicamente aqui comigo. Dizem que isso passa, que a dor diminui, que vira uma saudade bonita.
Um dia, quem sabe. Por enquanto, ainda é tudo dor.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Sobre o maior amor e a maior dor do mundo
Mamãe sempre gostou que eu escrevesse. Muitas vezes dediquei algumas linhas a ela. E como ela gostava disso! Ela também gostava de canetas e de escrever sua bonita letra em papel. Gostava de filmes bonitos e de passear no shopping. Gostava de se cuidar, é a pessoa mais vaidosa que conheci, certamente. Isso, inclusive, nos rendeu algumas broncas.
Mamãe sempre desejou a nossa presença física diariamente e isso me levou a alguns questionamentos que desde a semana passada se dissiparam. Hoje, talvez, eu entenda que ela, de alguma forma, sabia que tinha pouco tempo com a gente. E, de fato, teve. E nós sentimos muitíssimo por isso.
Muita gente vê nossa mãe como guerreira, mas não conhece 10% da história dela. Mamãe fez escolhas que muita gente julgou. Nós nunca. Ela sempre pensou no bem maior que ela tinha (tem) e esse bem temos orgulho de saber que somos nós. Mesmo quando precisou de mais cuidados, cuidava de nós como ninguém. E isso não acabou quando o monitor do CTI deu seu último apito na nossa presença.
Desde meados de 2012, quando ela - sozinha - diagnosticou o Mieloma Múltiplo, depois confirmado pelo seu médico, o Dr. Leandro Pataro, ela (que sempre teve o maior respeito pela medicina) se dedicou a viver do melhor jeito que pôde.
Ela não precisava, mas foi (e é) o maior exemplo de vontade de viver que cada pessoa aqui pôde conviver. Teve seus momentos de revolta, de choro copioso (quase nunca na nossa frente), mas ela, desde o primeiro minuto, escolheu a vida. Que orgulho temos! E que orgulho de saber que boa parte desse esforço foi por nós. Eu e Raquel.
Temos certeza de que nossa vida juntas é eterna, que os nossos laços nunca terão fim. Guardamos no peito o maior amor e também a maior dor do mundo.
Mãezinha, vá para o seu lugar bonito em paz. Nós cuidaremos de nós como você esperou ouvir para poder partir.
Nós te amamos.
Mamãe sempre desejou a nossa presença física diariamente e isso me levou a alguns questionamentos que desde a semana passada se dissiparam. Hoje, talvez, eu entenda que ela, de alguma forma, sabia que tinha pouco tempo com a gente. E, de fato, teve. E nós sentimos muitíssimo por isso.
Muita gente vê nossa mãe como guerreira, mas não conhece 10% da história dela. Mamãe fez escolhas que muita gente julgou. Nós nunca. Ela sempre pensou no bem maior que ela tinha (tem) e esse bem temos orgulho de saber que somos nós. Mesmo quando precisou de mais cuidados, cuidava de nós como ninguém. E isso não acabou quando o monitor do CTI deu seu último apito na nossa presença.
Desde meados de 2012, quando ela - sozinha - diagnosticou o Mieloma Múltiplo, depois confirmado pelo seu médico, o Dr. Leandro Pataro, ela (que sempre teve o maior respeito pela medicina) se dedicou a viver do melhor jeito que pôde.
Ela não precisava, mas foi (e é) o maior exemplo de vontade de viver que cada pessoa aqui pôde conviver. Teve seus momentos de revolta, de choro copioso (quase nunca na nossa frente), mas ela, desde o primeiro minuto, escolheu a vida. Que orgulho temos! E que orgulho de saber que boa parte desse esforço foi por nós. Eu e Raquel.
Temos certeza de que nossa vida juntas é eterna, que os nossos laços nunca terão fim. Guardamos no peito o maior amor e também a maior dor do mundo.
Mãezinha, vá para o seu lugar bonito em paz. Nós cuidaremos de nós como você esperou ouvir para poder partir.
Nós te amamos.
sábado, 26 de março de 2016
O passo do passo
(...)
Só entenda, por favor, que o amor alheio não se mede. Ele não é seu, nunca será, não se perca no seu próprio ego. O amor nunca é de quem recebe, mas de quem sente, é livre, independente de a quem se dá. Receber é dádiva, presente, não é algo de que se reclame ou desautorize. Nele, não existe o que você possa controlar.
Só entenda, por favor, que o amor alheio não se mede. Ele não é seu, nunca será, não se perca no seu próprio ego. O amor nunca é de quem recebe, mas de quem sente, é livre, independente de a quem se dá. Receber é dádiva, presente, não é algo de que se reclame ou desautorize. Nele, não existe o que você possa controlar.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Silêncios
Do silêncio que constrange, machuca, que grita alto e impede de dividir. Desse que faz com que o amor desinvada, encolha, não mereça, sequer, um porvir. O silêncio que fala sobre o que deixou de ser, que se transmuta no extremo oposto, na frivolidade do não sentir, do não querer, da ignorância de tudo que levou ao nada que é agora esse lugar.
A mudez daquilo que acaba, do que faltava pra ser feliz. Pra ser um e não dois, um em cada um, inteiros que não mais se somam, que não pretendem repartir. Repelem-se, desencaixam, desfazendo laços, aumentando espaços, abandonando os sonhos no cansaço, revelando as diferenças do sentir.
E o silêncio dos que se sabem, dos que, num só toque, percebem que o amor nunca se foi dali. O silêncio que aconchega e se projeta nessa imagem: nossa respiração, minha cabeça pousada sobre o seu peito, no leito acolhedor. Sem maiores adornos ou adjetivos - eles nunca serão necessários -, o puro e simples desejo de existirem juntos, um dia.
Sentir-se livre para não dizer e, justo aí, se fazer entender, se despir. Perceber que o suporte do amor está no alívio de ter consigo o apoio do outro. E com o outro o seu próprio. A tão desejada reciprocidade do bem querer. E o silêncio como um fim e um meio para alcançar esse ideal que pode nunca vir, mas, mesmo só na imaginação, alivia.
A mudez daquilo que acaba, do que faltava pra ser feliz. Pra ser um e não dois, um em cada um, inteiros que não mais se somam, que não pretendem repartir. Repelem-se, desencaixam, desfazendo laços, aumentando espaços, abandonando os sonhos no cansaço, revelando as diferenças do sentir.
E o silêncio dos que se sabem, dos que, num só toque, percebem que o amor nunca se foi dali. O silêncio que aconchega e se projeta nessa imagem: nossa respiração, minha cabeça pousada sobre o seu peito, no leito acolhedor. Sem maiores adornos ou adjetivos - eles nunca serão necessários -, o puro e simples desejo de existirem juntos, um dia.
Sentir-se livre para não dizer e, justo aí, se fazer entender, se despir. Perceber que o suporte do amor está no alívio de ter consigo o apoio do outro. E com o outro o seu próprio. A tão desejada reciprocidade do bem querer. E o silêncio como um fim e um meio para alcançar esse ideal que pode nunca vir, mas, mesmo só na imaginação, alivia.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Placas
Desce da barca. Continua falando. Falar pelos dedos é o que mais faz. Melhor do que pronunciar e se ouvir dizer o que verdadeiramente a apavora. Esconde ali, enquanto desabafa por caracteres, o que a aflige. Toma o ônibus. Dessa vez rindo, os olhos semifechados, ainda inchados da angústia incontida da tarde. Às vezes é impossível ser forte mesmo, aguenta, tenta, já você consegue de novo. Se diz. E avança. Opa, aonde você foi parar, que lugar é esse. Ta louca. Ri, ri muito de si mesma. Olha pela janela e pensa se vai ter coragem de descer no meio do nada, parece hostil. Mas é brava, quantas vezes já se embrenhou e desbravou o desconhecido, vai ter medinho agora. Não vai, nunca foi dessas. Desce de novo. Se concentra e procura nomes familiares. Encontra, sem certeza. Arruma a convicção. Finge segurança e anda.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Transbordo
No geral, eu escrevo aqui pra mim. Pra colocar pra fora, regurgitar, dizer o que não tenho coragem de expressar pessoal e diretamente. Que difícil ser 100% honesta. E isso não só com o outro, mas comigo mesma também.
E, nessa mudez, vou encolhendo, me escondendo, camuflando, guardando tanto pra mim (e de mim) que uma hora transbordo. E o transbordo, no geral, tem o efeito contrário ao que eu pensava desejar. De uma hora pra outra, fico nua, viro água cristalina num rio estranhamente calmo e fértil.
Esse refúgio, oásis de ar puro e leve que aparece de tempos em tempos, impede o gatilho da implosão, afasta a faísca do gás, arranca (com uma fina ironia) o oxigênio do ar.
Diante disso, me resta o ser, o estar e, principalmente, o dizer. Sem precisar muito entender, mesmo porque se decifrar demais deve ser dos mais pesados fardos a se carregar.
Prefiro manter a leveza dos apesares, essa que renasce a cada gesto sincero de quem se propõe a estender a mão e enxergar com os melhores olhos tudo o que sempre esteve aqui, dentro de mim.
E que transborda de quando em quando.
E, nessa mudez, vou encolhendo, me escondendo, camuflando, guardando tanto pra mim (e de mim) que uma hora transbordo. E o transbordo, no geral, tem o efeito contrário ao que eu pensava desejar. De uma hora pra outra, fico nua, viro água cristalina num rio estranhamente calmo e fértil.
Esse refúgio, oásis de ar puro e leve que aparece de tempos em tempos, impede o gatilho da implosão, afasta a faísca do gás, arranca (com uma fina ironia) o oxigênio do ar.
Diante disso, me resta o ser, o estar e, principalmente, o dizer. Sem precisar muito entender, mesmo porque se decifrar demais deve ser dos mais pesados fardos a se carregar.
Prefiro manter a leveza dos apesares, essa que renasce a cada gesto sincero de quem se propõe a estender a mão e enxergar com os melhores olhos tudo o que sempre esteve aqui, dentro de mim.
E que transborda de quando em quando.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Fomos
E a gente erra de novo os mesmos erros. Talvez pra ter certeza de que nunca foram os certos mesmo. Nas insistências, os devaneios de que a vida pode, de repente, ser diferente e nos fazer sorrir para os repetidos e antigos sonhos. Equivocados, mal pensados, desastrosos. Sinceros arrependimentos de alguns poucos segundos que deixam de existir nas lembranças dos quereres bem vividos, esperados por milênios, séculos, década(s)...
Sentimentos que não dependem de mais de um para serem belos. O fim da eterna espera pelo que sempre houve além de mim, além de você. Que se desfez nos nós. Desatados, a sós na multidão de apenas dois. Carregando as mesmas certezas de outrora, permaneço na ansiedade e inerte diante do que nunca virá. Sofro, e, ainda assim, não te maldigo pelas promessas incumpridas e muito menos a mim por essa credulidade cega. Não, não me acostumei, só aprendi que a gente é todo esse pouco indispensável. Somos esse tanto de todas as possibilidades do que, provavelmente, jamais acontecerá.
Sentimentos que não dependem de mais de um para serem belos. O fim da eterna espera pelo que sempre houve além de mim, além de você. Que se desfez nos nós. Desatados, a sós na multidão de apenas dois. Carregando as mesmas certezas de outrora, permaneço na ansiedade e inerte diante do que nunca virá. Sofro, e, ainda assim, não te maldigo pelas promessas incumpridas e muito menos a mim por essa credulidade cega. Não, não me acostumei, só aprendi que a gente é todo esse pouco indispensável. Somos esse tanto de todas as possibilidades do que, provavelmente, jamais acontecerá.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
O oposto do que um dia fui
Aconteceu muita coisa nos últimos 2 anos. Muitas coisas muito ruins. Outras boas. Nenhuma excepcionalmente maravilhosa. Talvez uma, que depois dissipou nas tristezas que se seguiram. Difícil lembrar dos momentos felizes quando a gente se depara com tantos percalços. Não acho que seja meritocrático esse processo. Convivo dolorosamente com o exemplo de que ser bom não isenta dos maus desígnios. É da vida, é o destino, é Deus.
Nesse caminho tortuoso, conheci (e redescobri) muita gente que fez a vida ficar mais suportável, e até leve, apesar de tudo e de todos os outros. Mas perdi muita gente também. Provável que por minha culpa, não descarto essa real possibilidade. Fui criando uma capa. Mudando. Quem conseguiria continuar sendo o mesmo, quem não criaria uma casca sobre aquela que já existia e parecia ter sido desfeita? Quem aguentaria uma nova decepção sem decepcionar também? Ninguém é perfeito, não é mesmo? Não sou mesmo.
Talvez eu não tenha mais a tão evidente doçura que um dia tive. Talvez o brilho dos meus olhos não seja ainda o de outrora. Sim, eu sou outra, e, de novo, longe de ser perfeita (certamente muito pior que aquela primeira, que também nunca foi).
Mas não sou o oposto do que um dia fui. Guardo rancores e mágoas que, sinceramente, desejo um dia esquecer. “Se desprender é um esforço consciente”. E eu tento isso todo dia que acordo.
Toda manhã é um novo deixar pra trás, esquecer, fazer morrer e respirar fundo para renascer.
Toda manhã é um novo deixar pra trás, esquecer, fazer morrer e respirar fundo para renascer.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Quando volta o Sol
O Sol volta e você espana o mofo
Levanta a persiana, abre a janela
Se deixa invadir com a luz amarela
Os olhos ainda cerrados até a íris acostumar
A quentura morna na pele
O céu de inverno
O mais bonito que há
Nem escaldante e nem frio
Apenas aconchegante, acolhedor
Que cai quase como um abraço de quem se ama
Se afastam as nuvens (se afastem, nuvens)
Deixem o Sol voltar
quinta-feira, 27 de março de 2014
Remorso selado
preciso de caneta para escrever. não tem caneta. não tem papel também. e não tem mais nada além. quer dizer, tem eu. deitada, semi-vestida, na cama azul. cheirando a cerveja. engasgada de tudo. tudo o que, na verdade, sempre foi nada. sempre fui, jamais serei. a certeza da dúvida. o doce talvez. o papel rabiscado e já enviado. o remorso selado. o que não terá jeito de ser apagado mais uma vez.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Carta para minha mãe em 07-01-14
Eu não sei começar a escrever o que vou dizer aqui. Já chorei. Não durmo. Como pouco. A cabeça dói. Os olhos estão turvos. Gostaria de ser forte. Queria ter um único desejo realizado por seja lá quem tenha poderes pra isso: que nada tivesse acontecido. Nada. Nunca. Meu desejo sempre foi o de te ver feliz. Desde que eu tinha, sei lá, 4 anos e te vi fazendo sacrifícios por nós. Desde que você se anulou em nome do nosso bem. Desde que você fez as suas escolhas com o único intuito de não nos deixar faltar. E você não nos deixou faltar. Você tirou de você por nós. Você sempre foi Mãe, no exato sentido do termo. Tenho esse mesmo desprendimento. Não sei se herdei, não sei se aprendi. Te quero bem e feliz como uma mãe quer ao seu filho, como você quer a nós. Trocamos os papéis. Faz tempo isso. Faz muito tempo. Me coloquei entre você e seu algoz uma vez. Dei eu o basta que você precisava. Não me arrependo de assumir um lado. O lado certo. O lado de quem protege o que importa. De quem tira de si pro bem do outro (porque é até o seu próprio bem). Te amo além das palavras. Te amo além do que o amor pode dizer. Queria poder me colocar entre você e o algoz de agora. Esse que se acha mais ardiloso, muito esperto. Não será. A vencedora nessa história de novo (e sempre) vai ser você. E eu serei seu escudo. Quantas e tantas vezes que se fizer necessário.
Te amo.
Sua Renatinha
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Pretérito imperfeito do indicativo
Quantas histórias de vida se encerram com esse tempo verbal? O inacabado, o não resolvido, o que, provavelmente, não terá uma solução. Por quanto tempo a gente tem que conviver com o ponto e vírgula na cabeça, e, muito pior, no coração? Quando chega a hora de se dar aquele basta? De não ter que aceitar mais a dor, o corte de papel sulfite na ponta do dedo quando você menos esperava.
Por que a gente prefere não terminar? Por que a gente amava como amava (o imperfeito)? O que leva a não desamar? Te desamo. Fim.
Não tem fim essa coisa de amor, tola. Ela fica lá, te faz pensar, te faz saber, te faz você. Você é todas as pessoas que já amou verdadeiramente. Não importa se a dor já está distante (e uma hora estará), não interessa o que a pessoa fez pra merecer o seu desamor mais sincero.
Porque, no fundo, o desamor é uma forma de amor também. Te desamo. Como te amava.
Te amo.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
(Des)aprendi
De um tudo acontece nessa vida
E pra que serve esse tudo, senão para (des)aprender?
(Des)aprendi a ser eu
Em nome do quê? Nem imagino.
Imposições alheias a mim,
ironia, mostraram exatamente o que tenho por dentro.
(Des)aprendi o que é mentir
e senti na pele as consequências disso.
(Des)aprendi o que são amigos,
e como eles se fazem,
e porque se mantêm
e pra que servem os seus abraços.
(Des)aprendi, também, que quase tudo o que só parece, na realidade, não é
– e nem nunca foi.
(Des)aprendi o que é real.
E o que não é.
(Des)aprendi e só.
E tirei lição nenhuma disso, a não ser as que devo esquecer.
(Des)aprendi o que um dia fui.
Mas voltei ao que sempre serei.
domingo, 20 de outubro de 2013
A verdade
A verdade é que estou machucada, com a ferida aberta. Sou um cachorro encolhido embaixo do armário, eu desconfio de tudo, de todos. Sozinha, não quero sua compreensão, seu carinho, seu cuidado. Quero só ficar imóvel, quietinha, sem explicações. E por quê? Porque sou a única responsável pelo que me dói. Porque me deixei lançar ao nada. Literalmente. Me forcei a ser livre sendo esse nada também. E aí tô aqui, não tenho casca, tenho carne exposta e ardendo sob a sombra fria da mobília. Não se sinta culpado, aqui você não importa, aqui você é só um ninguém. Você não pode curar o que não fez, não seja pretensioso. Seja apenas o nada que sempre fez questão de ser, desocupa o que nunca foi seu e devolve o que me roubou.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Sobre mim mesma
Uma peça de encaixe. Não dessas tipo lego, que são todas iguais e só mudam a cor. Imagina assim, um quebra-cabeças de várias dimensões. Melhor ainda, uma engrenagem. Peças que juntas - e isso não significa exatamente coordenadas - vão formando uma coisa maior. Vou chamar de coisa, mas não é pejorativo, acho, é apenas porque ainda não sei no que elas vão se transformar, só sei que viram algo (na realidade, espero que sim).
Agora me veio à cabeça que poderiam se tornar uma casa. Uma base sólida, retangular, paredes firmes e um telhado para proteger. Mas aí essa que descreve não seria eu. Não seria. Tô à deriva, lembra? Procurando terra firme.
Aliás, que clichê eu sou, o nome do meu CD favorito. Na realidade, nem isso, sou apenas um amontoado de frases feitas, uma coisa pequena e pouca, aquela peça de encaixe que, sozinha, é somente nada. Desimportante e só, me transformo em coisa nenhuma. E não tô dizendo pra terem pena, não (ainda que esteja bem digna de sentimentos menores por esses tempos).
Desembaçando a vista, sou um barco velho. Certo, encontrei a imagem que eu estava buscando. Não desses bonitos, imensos que comportam muitas pessoas e vão pros lugares mais distantes e concorridos. Sou de madeira boa ainda (ao menos isso, não é mesmo?) e em mim cabem uns bem poucos. E já que é assim, não se venha fingir de meu tripulante, por favor. Seja digno do pouco que tenho a oferecer e não te desfaça do que te parece nada.
Enxergue. Tenha bons olhos de apreciar o que pode haver de bonito nos sentimentos, nem tudo que é palpável é real. E, invertida, essa frase fica ainda igual. Não me esqueça. Ou melhor, me esqueça, e faça isso por mim.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Do que restou (ou: um quase plágio)
todos os posts daquele blog desarrumado
as notícias em primeira mão sem destinatário
duas cartas sem selo que não serão enviadas
um livro pela metade
uma pseudo-escritora sem inspiração
a sensação de entrega plena ao total desconhecido
um ou dois egos esvaziados
o nó na garganta
a segundite maldita
a certeza de que poderíamos ser mais, quem sabe um dia
uma saudade sem limites
essa dor que não para de crescer
o maior e mais difícil amor que já pensei em ter
as notícias em primeira mão sem destinatário
duas cartas sem selo que não serão enviadas
um livro pela metade
uma pseudo-escritora sem inspiração
a sensação de entrega plena ao total desconhecido
um ou dois egos esvaziados
o nó na garganta
a segundite maldita
a certeza de que poderíamos ser mais, quem sabe um dia
uma saudade sem limites
essa dor que não para de crescer
o maior e mais difícil amor que já pensei em ter
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Dança
Ele não sabe dançar
Mas não imagina que dita a trilha sonora dos meus dias
às vezes tão pulsante e vigorosa que me faz perder o ar, ávido
noutras, calma e vagarosa, daquela que embala o melhor dos sonos,
os reconfortantes, cabeça no peito, aconchego, proteção e abraço
em muitas (na maioria, aliás), agoniante, desesperadora
quase um grito no silêncio das duas da manhã de uma noite fria de segunda.
Mas eu o ensinaria a dançar. Ele aprenderia o meu ritmo, que, em um instante, seria o nosso, único.
Nenhuma cadência rebuscada, o mais simples um dois três
nossos passos seriam tão triviais e desimportantes que se tornariam os mais lindos de toda a existência
sem qualquer motivo, entenderíamos que, assim como na dança, a beleza do que se sente está apenas no sentir, no se deixar levar
E aí nos levaríamos juntos. Eu a ele e ele a mim.
Mas não imagina que dita a trilha sonora dos meus dias
às vezes tão pulsante e vigorosa que me faz perder o ar, ávido
noutras, calma e vagarosa, daquela que embala o melhor dos sonos,
os reconfortantes, cabeça no peito, aconchego, proteção e abraço
em muitas (na maioria, aliás), agoniante, desesperadora
quase um grito no silêncio das duas da manhã de uma noite fria de segunda.
Mas eu o ensinaria a dançar. Ele aprenderia o meu ritmo, que, em um instante, seria o nosso, único.
Nenhuma cadência rebuscada, o mais simples um dois três
nossos passos seriam tão triviais e desimportantes que se tornariam os mais lindos de toda a existência
sem qualquer motivo, entenderíamos que, assim como na dança, a beleza do que se sente está apenas no sentir, no se deixar levar
E aí nos levaríamos juntos. Eu a ele e ele a mim.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Não sei lidar
Não sei lidar com esse vazio que me enche inteira da falta que você me faz
Não consigo compreender que sua ausência rotineira me faz distante de mim mesma
e coloca à prova a cada minuto tudo aquilo que a gente conquistou
Da mesma forma, não consigo mais lutar contra quem me tira da mediocridade,
vê como extraordinário o meu mais batido clichê e me quer inteira, além do que a imaginação criou
Não entendo esse longe-perto, esse aqui-aí, esse embaçado dos olhos que geram as palavras sempre ditas na íntegra, tudo o que nos representa.
Amor que não se abrevia porque incansável e incurável.
Sou eu. Sou você. Sou nós. E nem sei porque, mas sou.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
E você?
Você tem coragem?
Você tem coragem pra fazer o que tem que ser feito?
Você tem coragem pra dizer o que deve ser dito?
Você tem coragem de ouvir?
Você tem coragem pra correr risco?
Você tem coragem de assumir quem você é?
Você tem coragem de pedir desculpas?
Você tem coragem de aceitar quando te pedem?
Você tem coragem?
Você é covarde?
Você tem coragem pra fazer o que tem que ser feito?
Você tem coragem pra dizer o que deve ser dito?
Você tem coragem de ouvir?
Você tem coragem pra correr risco?
Você tem coragem de assumir quem você é?
Você tem coragem de pedir desculpas?
Você tem coragem de aceitar quando te pedem?
Você tem coragem?
Você é covarde?
O alcance da promessa
É o que me interessa (Lenine)
Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
(...)
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
(...)
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
(...)
Atrasa (...)
(...) a minha pressa
(...)
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
(...)
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
(...)
(...) o infinito
Só o que me interessa.
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