Do silêncio que constrange, machuca, que grita alto e impede de dividir. Desse que faz com que o amor desinvada, encolha, não mereça, sequer, um porvir. O silêncio que fala sobre o que deixou de ser, que se transmuta no extremo oposto, na frivolidade do não sentir, do não querer, da ignorância de tudo que levou ao nada que é agora esse lugar.
A mudez daquilo que acaba, do que faltava pra ser feliz. Pra ser um e não dois, um em cada um, inteiros que não mais se somam, que não pretendem repartir. Repelem-se, desencaixam, desfazendo laços, aumentando espaços, abandonando os sonhos no cansaço, revelando as diferenças do sentir.
E o silêncio dos que se sabem, dos que, num só toque, percebem que o amor nunca se foi dali. O silêncio que aconchega e se projeta nessa imagem: nossa respiração, minha cabeça pousada sobre o seu peito, no leito acolhedor. Sem maiores adornos ou adjetivos - eles nunca serão necessários -, o puro e simples desejo de existirem juntos, um dia.
Sentir-se livre para não dizer e, justo aí, se fazer entender, se despir. Perceber que o suporte do amor está no alívio de ter consigo o apoio do outro. E com o outro o seu próprio. A tão desejada reciprocidade do bem querer. E o silêncio como um fim e um meio para alcançar esse ideal que pode nunca vir, mas, mesmo só na imaginação, alivia.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Placas
Desce da barca. Continua falando. Falar pelos dedos é o que mais faz. Melhor do que pronunciar e se ouvir dizer o que verdadeiramente a apavora. Esconde ali, enquanto desabafa por caracteres, o que a aflige. Toma o ônibus. Dessa vez rindo, os olhos semifechados, ainda inchados da angústia incontida da tarde. Às vezes é impossível ser forte mesmo, aguenta, tenta, já você consegue de novo. Se diz. E avança. Opa, aonde você foi parar, que lugar é esse. Ta louca. Ri, ri muito de si mesma. Olha pela janela e pensa se vai ter coragem de descer no meio do nada, parece hostil. Mas é brava, quantas vezes já se embrenhou e desbravou o desconhecido, vai ter medinho agora. Não vai, nunca foi dessas. Desce de novo. Se concentra e procura nomes familiares. Encontra, sem certeza. Arruma a convicção. Finge segurança e anda.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Transbordo
No geral, eu escrevo aqui pra mim. Pra colocar pra fora, regurgitar, dizer o que não tenho coragem de expressar pessoal e diretamente. Que difícil ser 100% honesta. E isso não só com o outro, mas comigo mesma também.
E, nessa mudez, vou encolhendo, me escondendo, camuflando, guardando tanto pra mim (e de mim) que uma hora transbordo. E o transbordo, no geral, tem o efeito contrário ao que eu pensava desejar. De uma hora pra outra, fico nua, viro água cristalina num rio estranhamente calmo e fértil.
Esse refúgio, oásis de ar puro e leve que aparece de tempos em tempos, impede o gatilho da implosão, afasta a faísca do gás, arranca (com uma fina ironia) o oxigênio do ar.
Diante disso, me resta o ser, o estar e, principalmente, o dizer. Sem precisar muito entender, mesmo porque se decifrar demais deve ser dos mais pesados fardos a se carregar.
Prefiro manter a leveza dos apesares, essa que renasce a cada gesto sincero de quem se propõe a estender a mão e enxergar com os melhores olhos tudo o que sempre esteve aqui, dentro de mim.
E que transborda de quando em quando.
E, nessa mudez, vou encolhendo, me escondendo, camuflando, guardando tanto pra mim (e de mim) que uma hora transbordo. E o transbordo, no geral, tem o efeito contrário ao que eu pensava desejar. De uma hora pra outra, fico nua, viro água cristalina num rio estranhamente calmo e fértil.
Esse refúgio, oásis de ar puro e leve que aparece de tempos em tempos, impede o gatilho da implosão, afasta a faísca do gás, arranca (com uma fina ironia) o oxigênio do ar.
Diante disso, me resta o ser, o estar e, principalmente, o dizer. Sem precisar muito entender, mesmo porque se decifrar demais deve ser dos mais pesados fardos a se carregar.
Prefiro manter a leveza dos apesares, essa que renasce a cada gesto sincero de quem se propõe a estender a mão e enxergar com os melhores olhos tudo o que sempre esteve aqui, dentro de mim.
E que transborda de quando em quando.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Fomos
E a gente erra de novo os mesmos erros. Talvez pra ter certeza de que nunca foram os certos mesmo. Nas insistências, os devaneios de que a vida pode, de repente, ser diferente e nos fazer sorrir para os repetidos e antigos sonhos. Equivocados, mal pensados, desastrosos. Sinceros arrependimentos de alguns poucos segundos que deixam de existir nas lembranças dos quereres bem vividos, esperados por milênios, séculos, década(s)...
Sentimentos que não dependem de mais de um para serem belos. O fim da eterna espera pelo que sempre houve além de mim, além de você. Que se desfez nos nós. Desatados, a sós na multidão de apenas dois. Carregando as mesmas certezas de outrora, permaneço na ansiedade e inerte diante do que nunca virá. Sofro, e, ainda assim, não te maldigo pelas promessas incumpridas e muito menos a mim por essa credulidade cega. Não, não me acostumei, só aprendi que a gente é todo esse pouco indispensável. Somos esse tanto de todas as possibilidades do que, provavelmente, jamais acontecerá.
Sentimentos que não dependem de mais de um para serem belos. O fim da eterna espera pelo que sempre houve além de mim, além de você. Que se desfez nos nós. Desatados, a sós na multidão de apenas dois. Carregando as mesmas certezas de outrora, permaneço na ansiedade e inerte diante do que nunca virá. Sofro, e, ainda assim, não te maldigo pelas promessas incumpridas e muito menos a mim por essa credulidade cega. Não, não me acostumei, só aprendi que a gente é todo esse pouco indispensável. Somos esse tanto de todas as possibilidades do que, provavelmente, jamais acontecerá.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
O oposto do que um dia fui
Aconteceu muita coisa nos últimos 2 anos. Muitas coisas muito ruins. Outras boas. Nenhuma excepcionalmente maravilhosa. Talvez uma, que depois dissipou nas tristezas que se seguiram. Difícil lembrar dos momentos felizes quando a gente se depara com tantos percalços. Não acho que seja meritocrático esse processo. Convivo dolorosamente com o exemplo de que ser bom não isenta dos maus desígnios. É da vida, é o destino, é Deus.
Nesse caminho tortuoso, conheci (e redescobri) muita gente que fez a vida ficar mais suportável, e até leve, apesar de tudo e de todos os outros. Mas perdi muita gente também. Provável que por minha culpa, não descarto essa real possibilidade. Fui criando uma capa. Mudando. Quem conseguiria continuar sendo o mesmo, quem não criaria uma casca sobre aquela que já existia e parecia ter sido desfeita? Quem aguentaria uma nova decepção sem decepcionar também? Ninguém é perfeito, não é mesmo? Não sou mesmo.
Talvez eu não tenha mais a tão evidente doçura que um dia tive. Talvez o brilho dos meus olhos não seja ainda o de outrora. Sim, eu sou outra, e, de novo, longe de ser perfeita (certamente muito pior que aquela primeira, que também nunca foi).
Mas não sou o oposto do que um dia fui. Guardo rancores e mágoas que, sinceramente, desejo um dia esquecer. “Se desprender é um esforço consciente”. E eu tento isso todo dia que acordo.
Toda manhã é um novo deixar pra trás, esquecer, fazer morrer e respirar fundo para renascer.
Toda manhã é um novo deixar pra trás, esquecer, fazer morrer e respirar fundo para renascer.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Quando volta o Sol
O Sol volta e você espana o mofo
Levanta a persiana, abre a janela
Se deixa invadir com a luz amarela
Os olhos ainda cerrados até a íris acostumar
A quentura morna na pele
O céu de inverno
O mais bonito que há
Nem escaldante e nem frio
Apenas aconchegante, acolhedor
Que cai quase como um abraço de quem se ama
Se afastam as nuvens (se afastem, nuvens)
Deixem o Sol voltar
quinta-feira, 27 de março de 2014
Remorso selado
preciso de caneta para escrever. não tem caneta. não tem papel também. e não tem mais nada além. quer dizer, tem eu. deitada, semi-vestida, na cama azul. cheirando a cerveja. engasgada de tudo. tudo o que, na verdade, sempre foi nada. sempre fui, jamais serei. a certeza da dúvida. o doce talvez. o papel rabiscado e já enviado. o remorso selado. o que não terá jeito de ser apagado mais uma vez.
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