quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Carta para minha mãe em 07-01-14

Eu não sei começar a escrever o que vou dizer aqui. Já chorei. Não durmo. Como pouco. A cabeça dói. Os olhos estão turvos. Gostaria de ser forte. Queria ter um único desejo realizado por seja lá quem tenha poderes pra isso: que nada tivesse acontecido. Nada. Nunca. Meu desejo sempre foi o de te ver feliz. Desde que eu tinha, sei lá, 4 anos e te vi fazendo sacrifícios por nós. Desde que você se anulou em nome do nosso bem. Desde que você fez as suas escolhas com o único intuito de não nos deixar faltar. E você não nos deixou faltar. Você tirou de você por nós. Você sempre foi Mãe, no exato sentido do termo. Tenho esse mesmo desprendimento. Não sei se herdei, não sei se aprendi. Te quero bem e feliz como uma mãe quer ao seu filho, como você quer a nós. Trocamos os papéis. Faz tempo isso. Faz muito tempo. Me coloquei entre você e seu algoz uma vez. Dei eu o basta que você precisava. Não me arrependo de assumir um lado. O lado certo. O lado de quem protege o que importa. De quem tira de si pro bem do outro (porque é até o seu próprio bem). Te amo além das palavras. Te amo além do que o amor pode dizer. Queria poder me colocar entre você e o algoz de agora. Esse que se acha mais ardiloso, muito esperto. Não será. A vencedora nessa história de novo (e sempre) vai ser você. E eu serei seu escudo. Quantas e tantas vezes que se fizer necessário.

Te amo.

Sua Renatinha

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pretérito imperfeito do indicativo

Quantas histórias de vida se encerram com esse tempo verbal? O inacabado, o não resolvido, o que, provavelmente, não terá uma solução. Por quanto tempo a gente tem que conviver com o ponto e vírgula na cabeça, e, muito pior, no coração? Quando chega a hora de se dar aquele basta? De não ter que aceitar mais a dor, o corte de papel sulfite na ponta do dedo quando você menos esperava.

Por que a gente prefere não terminar? Por que a gente amava como amava (o imperfeito)? O que leva a não desamar? Te desamo. Fim. 

Não tem fim essa coisa de amor, tola. Ela fica lá, te faz pensar, te faz saber, te faz você. Você é todas as pessoas que já amou verdadeiramente. Não importa se a dor já está distante (e uma hora estará), não interessa o que a pessoa fez pra merecer o seu desamor mais sincero. 

Porque, no fundo, o desamor é uma forma de amor também. Te desamo. Como te amava.

Te amo.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

(Des)aprendi

De um tudo acontece nessa vida
E pra que serve esse tudo, senão para (des)aprender?
(Des)aprendi a ser eu
Em nome do quê? Nem imagino.
Imposições alheias a mim,
ironia, mostraram exatamente o que tenho por dentro.
(Des)aprendi o que é mentir 
e senti na pele as consequências disso.
(Des)aprendi o que são amigos,
e como eles se fazem,
e porque se mantêm
e pra que servem os seus abraços.
(Des)aprendi, também, que quase tudo o que só parece, na realidade, não é
– e nem nunca foi.
(Des)aprendi o que é real.
E o que não é.
(Des)aprendi e só.
E tirei lição nenhuma disso, a não ser as que devo esquecer.
(Des)aprendi o que um dia fui.
Mas voltei ao que sempre serei.

domingo, 20 de outubro de 2013

A verdade

A verdade é que estou machucada, com a ferida aberta. Sou um cachorro encolhido embaixo do armário, eu desconfio de tudo, de todos. Sozinha, não quero sua compreensão, seu carinho, seu cuidado. Quero só ficar imóvel, quietinha, sem explicações. E por quê? Porque sou a única responsável pelo que me dói. Porque me deixei lançar ao nada. Literalmente. Me forcei a ser livre sendo esse nada também. E aí tô aqui, não tenho casca, tenho carne exposta e ardendo sob a sombra fria da mobília. Não se sinta culpado, aqui você não importa, aqui você é só um ninguém. Você não pode curar o que não fez, não seja pretensioso. Seja apenas o nada que sempre fez questão de ser, desocupa o que nunca foi seu e devolve o que me roubou.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Sobre mim mesma

Uma peça de encaixe. Não dessas tipo lego, que são todas iguais e só mudam a cor. Imagina assim, um quebra-cabeças de várias dimensões. Melhor ainda, uma engrenagem. Peças que juntas - e isso não significa exatamente coordenadas - vão formando uma coisa maior. Vou chamar de coisa, mas não é pejorativo, acho, é apenas porque ainda não sei no que elas vão se transformar, só sei que viram algo (na realidade, espero que sim). 
Agora me veio à cabeça que poderiam se tornar uma casa. Uma base sólida, retangular, paredes firmes e um telhado para proteger. Mas aí essa que descreve não seria eu. Não seria. Tô à deriva, lembra? Procurando terra firme. 
Aliás, que clichê eu sou, o nome do meu CD favorito. Na realidade, nem isso, sou apenas um amontoado de frases feitas, uma coisa pequena e pouca, aquela peça de encaixe que, sozinha, é somente nada. Desimportante e só, me transformo em coisa nenhuma. E não tô dizendo pra terem pena, não (ainda que esteja bem digna de sentimentos menores por esses tempos). 
Desembaçando a vista, sou um barco velho. Certo, encontrei a imagem que eu estava buscando. Não desses bonitos, imensos que comportam muitas pessoas e vão pros lugares mais distantes e concorridos. Sou de madeira boa ainda (ao menos isso, não é mesmo?) e em mim cabem uns bem poucos. E já que é assim, não se venha fingir de meu tripulante, por favor. Seja digno do pouco que tenho a oferecer e não te desfaça do que te parece nada. 
Enxergue. Tenha bons olhos de apreciar o que pode haver de bonito nos sentimentos, nem tudo que é palpável é real. E, invertida, essa frase fica ainda igual. Não me esqueça. Ou melhor, me esqueça, e faça isso por mim.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Do que restou (ou: um quase plágio)

todos os posts daquele blog desarrumado
as notícias em primeira mão sem destinatário
duas cartas sem selo que não serão enviadas
um livro pela metade
uma pseudo-escritora sem inspiração
a sensação de entrega plena ao total desconhecido
um ou dois egos esvaziados
o nó na garganta
a segundite maldita
a certeza de que poderíamos ser mais, quem sabe um dia
uma saudade sem limites
essa dor que não para de crescer
o maior e mais difícil amor que já pensei em ter

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Dança

Ele não sabe dançar
Mas não imagina que dita a trilha sonora dos meus dias
às vezes tão pulsante e vigorosa que me faz perder o ar, ávido
noutras, calma e vagarosa, daquela que embala o melhor dos sonos,
os reconfortantes, cabeça no peito, aconchego, proteção e abraço
em muitas (na maioria, aliás), agoniante, desesperadora
quase um grito no silêncio das duas da manhã de uma noite fria de segunda.
Mas eu o ensinaria a dançar. Ele aprenderia o meu ritmo, que, em um instante, seria o nosso, único.
Nenhuma cadência rebuscada, o mais simples um dois três
nossos passos seriam tão triviais e desimportantes que se tornariam os mais lindos de toda a existência
sem qualquer motivo, entenderíamos que, assim como na dança, a beleza do que se sente está apenas no sentir, no se deixar levar
E aí nos levaríamos juntos. Eu a ele e ele a mim.